FALSIFICAÇÕES DA HISTÓRIA EM RELAÇÃO À CACICA TAPAJÓ MARIA MOAÇARA (MOACARA) (artigo)

Publicado a 3 de agosto de 2016 por lgm 

cerâmica tapajoaraFALSIFICAÇÕES DA HISTÓRIA EM RELAÇÃO À CACICA TAPAJÓ MARIA MOAÇARA (MOACARA)
(Luiz Guilherme Marques)
Tenho sempre falado que minha afeição pela História do Brasil e pela História Universal vem desde meus 12 anos de idade, quando comecei a ler incansavelmente, ininterruptamente, como se o mundo fosse acabar amanhã.
Isso foi me dando base para escrever e hoje tenho 167 livros escritos, dos quais muitos são de História, inclusive do Brasil.
Quero aqui fazer um comentário sobre um dos livros que terminei de ler recentemente, cujo nome é “Crônica da Missão dos Padres da Companhia de Jesus no Estado do Maranhão”, publicado pelo Senado Federal, 2010, escrito pelo padre jesuíta João Felipe Bettendorff, que viveu de 1625 a 1698, tendo nascido em Lintgen, Luxemburgo, e morrido no Colégio do Pará, no Brasil.
Quem pesquisa com profundidade, argúcia e vontade firme de descobrir a verdade, acaba vendo que metade das chamadas “verdades históricas” é mentira.
É o que acontece comigo, pois investigo fatos históricos “com um olho no gato e outro no peixe”, ou seja, acredito, em tese, nos historiadores, mas, ao mesmo tempo, confiro para ver se estão sendo verdadeiros ou tendenciosos ou até se não houve interpolações, como as há na própria Bíblia.
Pois bem, a única personagem feminina destacada pelo autor no seu livro é a cacica Maria Moaçara (ou Moacara), que, no índice onomástico, aparece nas seguintes páginas: 195, 294, 385, 400, 577 e 630.
Aparece no livro como uma grande cacica, mulher honrada, que, ao contrário das outras índias, que não usavam roupas, vestia-se à moda portuguesa e foi casada, primeiro, com o cacique Roque, tendo ficado viúva pouco depois de um ano, e, depois de nove anos de viuvez, casou-se com um militar graduado português de nome Rafael Gonçalves, o que provocou muito desagrado entre muitos índios, quase gerando uma guerra interna, que foi contornada, e morreu assassinada barbaramente pelo sargento-mor Domingos de Matos.
Um detalhe que me chamou a atenção, por ser muito importante para eu conferir se esse livro foi fraudado, é que o original sumiu, ou melhor, “sumiram-no”, sendo que o nosso famoso poeta brasileiro Gonçalves Dias encontrou apenas uma “cópia” manuscrita, cópia esta que foi publicada no Brasil, pela editora do Senado Federal.
Vamos pensar juntos: o manuscrito original sumiu e a edição se baseou em uma cópia.
Até aí, aparentemente, nada de suspeito.
Mas acontece que, em todas as referências à cacica ela aparece como uma mulher digna, respeitada, líder incontestável dos tapajós, que ocupavam uma extensa área localizada entre os rios Madeira e Tapajós, tendo ela habitado principalmente onde hoje se localiza o bairro Aldeia, em Santarém.
O suspeito é que na referência a ela das páginas 577/578, não é mais uma mulher respeitável, que andava vestida à moda portuguesa, mas sim uma mulher de uma vulgaridade de prostituta, que se teria apresentado nua ao padre Bettendorff e os acompanhantes dele, quando este foi formalmente visitá-la e aos seus índios para os convidar para morarem perto da cidade, tendo sido dito que nessa ocasião, além da nudez estranha, ela passou a mão no rosto dele, tentando seduzi-lo, chamando-o de bonito e convidou a ele e seus companheiros brancos para comerem um tipo de doce na sua cabana, inclusive querendo que o padre historiador se sentasse perto dela na esteira.
Meus amigos, muita gente pode acreditar nessa interpolação, tendo-a como uma afirmação feita pelo padre autor do referido livro, mas essa não colou.
Quem inventou essa mentira não foi inteligente o suficiente, porque, ao tentar desmoralizar a grande cacica e, indiretamente, toda a civilização tapajó, esqueceu-se de fraudar o restante do livro, onde o padre Bettendorff tece elogios às virtudes da cacica, isso sem contar também que a linguagem do incidente inventado pelo fraudador é totalmente diferente do restante da obra.
Seria cansativo para os prezados leitores a comparação literal dos dois estilos, mas a verdade é que a redação superior de Bettendorff não aparece na narrativa interpolada do escrevinhador barato e cafajeste que inseriu a mentira no livro do grande historiador luxemburguês.
Quem lê o livro todo fica embasbacado com a elegância do estilo de Bettendorff, mas assusta-se com a redação pobre, sem qualificação literária e sem ética do interpolador do incidente das páginas 577/578.
É como se alguém resolvesse retocar um espaço do quadro da Monalisa, de Leonardo da Vinci: imaginem a portaria que viraria o quadro…
Pois bem, o que isso tem de importante? Simplesmente o seguinte: quem fez a interpolação mentirosa pretendeu desmoralizar a civilização indígena avacalhando a pessoa da sua cacica mais importante de todos os tempos, que foi Maria Moaçara (Moacara).
Os tapajós foram a civilização indígena mais avançada que existiu no Brasil e literalmente desapareceu depois da morte da grande líder Maria Moaçara (Moacara)
Alguns pesquisadores e paleontólogos estão tentando descobrir pistas que levem ao conhecimento da grandiosidade cultural desse povo, que alcançou seu ponto máximo de evolução justamente na época em que essa cacica era viva, ou seja, no final do século XVII.
Leiam o livro a que me refiro, pesquisem as outras fontes, olhem tudo com olhos de lince e terão alguma ideia da grandiosidade do povo tapajó, que se equipara, em muitos aspectos, aos incas, astecas e maias.
A cerâmica tapajó, por exemplo, é de uma beleza e complexidade que você, prezado leitor, vai ter o sonho de consumo de adquirir pelo menos uma peça, mesmo sabendo que se trate de mera imitação!

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